terça-feira, abril 03, 2012

TEXTO JORNAL VAIA

Confira a reprodução do texto que saiu sobre a FestiPOA Literária no jornal Vaia, edição 32, lançado em março de 2012: A palavra solta na saliva.

domingo, abril 01, 2012

FESTIPOA LITERÁRIA - A PALAVRA SOLTA NA SALIVA





Uma pergunta pertinente além de ótima pauta para um debate é a seguinte: qual o lugar da literatura para além daquilo que se convenciona como sendo o lugar da literatura? O convívio com a leitura normalmente se resume a salas de aula, bibliotecas, livrarias, na relação com o livro sempre existe um tratamento mais íntimo, particular e solitário, acompanhado de um isolamento para a fruição do texto. Esse é um dos prazeres que a prática da leitura proporciona, a captação de outro universo, outra ordem de códigos e significados em que o mundo real muitas vezes não chega a ser uma referência.

No entanto, todas as reflexões inteligentes que se façam para ressaltar o verdadeiro poder transformador da leitura nas civilizações, muitas vezes são menores do que a sobrevivência de empresas, negócios, práticas do sistema capitalista e coisas distantes aos nobres sentimentos em torno da literatura, que resiste e existe como arte, embora muitos não consigam enxergar suas verdadeiras utilidades nesse mundo, prova de uma cegueira mental que às vezes dá seus ares por aí.

Atrevo-me a responder que a o lugar da literatura é o lugar da linguagem: códigos e signos são as máquinas reais da evolução. E desde 2007 existe um evento literário em Porto Alegre capaz de alargar o tema literatura , pois celebra justamente o intercâmbio das linguagens presentes nas produções artísticas de hoje em dia. Um evento já incorporado a vida cultural da capital gaúcha cujo ponto de partida é a Senhora literatura. Justamente: a FestiPoa literária chega ao seu 5º ano consecutivo em 2012 com a marca da pluralidade e o valor das suas abordagens. Ainda não se tinha visto em Porto Alegre uma atividade literária declaradamente descontraída, que acolhe a diversidade e deixa inclusive o público a vontade, sem aquela pretensão incômoda e antipática de que literatura é para poucos entendidos, não existe a manutenção do velho conceito de que literatura é artigo de luxo. Existe sim uma profusão de informação, com repertório largo de opiniões, reflexões, visões arejadas sobre o tema literário.

Não há apenas a valorização do debate em que a ênfase está somente na leitura, a conversa vai além do livro e chega aos bastidores da escrita, ao mercado editorial, ao sistema literário, a presença do autor em carne , osso e coragem, as experimentações com a linguagem, a palavra levada ao palco, a preocupação em gerar a discussão em que se apontem novos caminhos para a literatura estar mais presente no cotidiano. E uma atenção especial em fazer com a palavra criativa comunique, dê informação através do faro estético.

A FestiPoa literária carrega em sua bagagem esse histórico da movimentação da palavra em vários suportes, palco, leitura, show e debate, exposição, não pretende veicular uma única opinião ou ponto de vista absoluto, exige o ingrediente da provocação, da diferença, do embate cultural onde se pode gerar saída para algum impasse aparentemente impossível de esclarecer. A negação do senso comum tendo em vista simultaneidade das discussões e o exercício de um pensamento dinâmico, tudo isso faz essa celebração da literatura afirmar-se na programação cultural da nossa cidade desde sua primeira edição. Já é natural que literatos e artista de um modo geral esperem a próxima temporada da FestiPoa literária, cuja programação tem ocorrido nos meses de março e abril.

O jornal Vaia poder ser considerado o irmão mais velho da FestiPoa, de certa forma o periódico funciona como uma versão impressa do evento. Do mesmo modo, reúne conteúdos literários variados e está sempre atento as novidades, lançamentos e projetos artísticos. Abre espaço para ensaios, entrevistas enormes, completas, que não deixam escapar nada sobre determinado autor, além das páginas generosas dedicadas a produção literária e poesia em suas edições, reunindo novos autores e nomes badalados.

Pode-se comparar o jornal Vaia a um dos suportes do projeto Festipoa, pois ele cumpre e veicula a mesma matéria literária e do mesmo jeito existe a despeito de qualquer padronização da área. Esse ano o jornal terá uma edição exclusiva inteiramente dedicada a 5º FestiPoa literária. Pode ariscar dizer que o jornal Vaia foi o sopro inicial desse evento literário mais eclético da cidade de Porto Alegre.

Um aspecto para mim muito importante na articulação do FestiPoa literária é aquilo que denomino como sendo hierarquia da consagração, ou seja, o critério de organização do evento não depende em momento algum da predileção do critério do autor renomado, não prioriza isso como pauta principal. E faz toda diferença. O nível de valorização do autor estreante ou mesmo sem um livro publicado convencionalmente, tem a mesma importância na execução do projeto.

Essa prática é inclusive destacada na programação, é comum, por exemplo, haver uma mesa que reúna as autoras com anos de carreira e publicado inúmeras vezes por uma editora de circulação nacional, junto com o jovem que recém publicou seu primeiro livro por uma gráfica regional. Evidentemente a atenção do público pode estar concentrada no autor renomado, no entanto, a surpresa do diálogo possível entre os dois nomes certamente será curiosa e inusitada: dessa aproximação pode haver uma nova informação, um choque de ideias, um faísca de gerações diferentes que tem em comum o ofício da escrita, com diferentes referências. Esse modo de formatar o evento é uma característica singular do FestiPoa, sem aquela típica ostentação ao nome ou tema consagrado.

A FestiPoa Literária é efetivamente a festa da literatura em Porto Alegre, sem perder a consciência da festa como celebração, como brinde e exaltação ao tema literário, desapegada a preconceitos ou regras excludentes: o público é parte integrante da programação tanto quanto a obra destacada ou o artista reverenciado. O público é organismo da festa e não enfeite. Em tempos felizes de fomentação e veiculação da leitura, desde ONGS a iniciativas públicas e privadas para a propagação da leitura, a FestiPoa é um brilho a mais na continuidade da difusão da leitura em nosso estado.

O evento organizado e produzido pelo agitador cultural Fernando Ramos, um nome de destaque e empenho em nome da literatura, cujo encantamento está no esforço deliberado em fazer a coisa acontecer de fato. Fernando Ramos é a medula e osso do evento, por causa do seu esforço o evento transformou-se numa importante atividade cultural que destaca a produção contemporânea literária. Agora com a parceria do Cabaré do Verbo e com o prêmio de destaque Fato Literário 2010, a FestiPoa já contou com a participação de autores e artistas regionais e de expressão nacional., Para citar alguns nomes: Marcelino Freire, Laerte, Antonio Cícero, Ademir Assunção, Rodrigo Garcia Lopes, Nelson de Oliveira, José Castello, Luíz Horácio, Nicolas Behr, Wladimir Cazé, Antonio Carlos Secchin, Virna Teixeira, Zeca Baleiro, Xico Sá.

A prática de contar a cada edição com um homenageado local trouxe ao FestiPoa a participação luxuosa de João Gilberto Nool, Luís Fernando Veríssimo e Sérgio Faraco. Os autores cara a cara com o público, respondendo perguntas, apresentando ideias, lendo ao vivo em voz alta seus textos, trazendo a literatura para fora de casa, permitindo uma relação coletiva com a palavra escrita, percebendo outros tratamentos para a prática literária, lembrando o movimento Beat e suas longas apresentações com leituras e conferências abertas sobre poesia e criação, fazendo a literatura atuar nos palcos, nas mesas das livrarias, nos bares e teatros (renovando, portanto, a ambientação para a prática literária) tornando a palavra viva e não escondida nas prateleiras, desafinando o coro repetido dos contentes e bagunçando um pouco a velha ordem do exercício solene da literatura, tornando-a linguagem crua e alcançando públicos maiores, integrada a música, artes plásticas, teatro, performance, a literatura espelhada em outras expressões artísticas, tudo ao mesmo tempo agora.

O êxito declarado do Festipoa já tem razão de ser. Promove inúmeras questões sobre a veiculação da literatura. De cara, traz à tona a renovação dos meios por onde pode circular o texto. Além disso, diz respeito também a relação obra, autor, público, os suportes por onde corre a palavra escrita, a literatura enquanto exercício não especificamente intelectual, as inúmeras práticas possíveis com a palavra criativa e as confluências realizáveis com outras áreas. Tudo isso é tema para o FestiPoa, a festa da palavra solta na saliva.


Publicado originalmente no Jornal Vaia - Março de 2012

domingo, março 25, 2012

REVISTA VOX

Saiu a nova edição da Revista VOX, editada pelo Instituto Estadual Do Livro e coordenada por Tailor Diniz. Entre preciosas colaborações, tem um poemeu na página 48, confira.





sexta-feira, março 23, 2012

INSTITUTO ESTADUAL DO LIVRO



Diego Petrarca une-se à Associação Lígia Averbuck, que apoia o Instituto Estadual do Livro, em sua campanha para atrair novos sócios, divulgar a literatura do Rio Grande do Sul e formar leitores. Produzidos pela Cubo Filmes e dirigidos por Pena Cabreira, os vídeos somam-se às peças gráficas e spots de rádio da campanha elaborada pela agência Competence.

quinta-feira, março 22, 2012

DIEGO 32

20 de março de 2012 - Amigos e família (parte) no restaurante Via Imperatora, ao lado de casa, comemorando meu aniversário. Abraços , brindes e discurso. Grato a todas as imprescindíveis carinhosas presenças.


BRUTA AVENTURA EM VERSOS



Trailler do filme Bruta Aventura em Versos, sobre a poeta Ana Cristina César, que foi exibido dia 20/03 as 19:00 no Cine Bancários. Um belo documentário sobre essa autora que entrou pelos sete buracos da minha cabeça. Em abril o filme retorna na programação do cinema. Direção: Letícia Simões.

segunda-feira, março 12, 2012

PELA BEIRA


O poema Pela Beira foi publicado hoje em ZH, dia 12 de março de 2012, dia em que o escritor beat Jack Kerouac faria 90 anos. O poema saiu acompanhado de uma frase do autor de Pé na estrada. Pela Beira concentra um misto de biografia visual e um modo de passear de ônibus com um "exercício de relax".


quarta-feira, março 07, 2012

LADODENTRO ENTREVISTA - ARMINDO TREVISAN




Confira a entrevista inédita com o poeta, professor e especialista em arte, Armindo Trevisan, uma das forças culturais em nosso estado. Com direito a uma recomendação  que o escritor faz sobre suas próprias respostas.

Leiam minhas respostas COM CALMA, embora elas tenham sido escritas às pressas. Gostaria de ter mais tempo. Com 77 anos, a gente só tem tempo para os familiares e amigos. Para a saudade dos entes queridos que se foram. E se a gente não é louca: para a oração!
Ciao, Diego!


Poesia e Religiosidade, existe uma relação pertinente entre elas? 

A poesia nasceu dentro do mito. Leroy-Gouhran, pesquisador da pré-História, pensa que as imagens das cavernas de 17.000-20.000 anos a. C., ou mais, não são compreensíveis sem danças rituais ou iniciáticas que, na época, eram realizadas no seu interior, com o objetivo de facilitar a caça de animais. Ou, simplesmente, para abastecer o inconsciente coletivo.O importanto é que o ritmo domina tais imagens, do que se deduz, também, que possivelmente eram acompanhadas com batidas de mãos, movimentos de dança e brevíssimos refrões repetidos pelos partipantees? Tais palavras seriam os gerrmes da poesia. A lei da repetição, básica para a poesia, já estaria ali. É lógico que mais tarde, nas religiões constituídas, a poesia entrou em cheio. Pensemos nos textos sumérios e egípcios que a arqueologia desenterrou.Pensemos nos textos da Bíblia, antiquíssimos.Que dizer, então, da poesia cristã, que já se manifesta nos Hinos Litúrgicos do tempo de Santo Ambrósio, um de seus iniciadores, que Santo Agostinho rememorou com saudades no seu livro Confissões!

 Como se lê Poesia?

Poesia não só não é prosa; é antiprosa! A base da poesia é o verso, que não existe sem repetição. Noutras palavras, que não existe sem ritmo. Seria preciso voltar a ensinar a leitura poética nas escolas. As crianças adoram poesia quando descobrem que ela é rima, sonoridade, fantasia...Os adultos, que dizem com soberba que não gostam de poesia, são, em geral, pessoas que não tiveram uma infância completa, com mais sensibilidade e fantasia.A nossa sociedade, insistindo demais nos efeitos especiais dos filmes, da vida, do sexo, do comportamento no trânsito, nas festas de doideira, causa prejuízos à psicologia dos jovens. Tornam-se grosseiros, debochados, metidos a machões. Minha opinião é que a baixaria, em geral, ou sempre, não presta.. Maior polidez, reserva, elegância, nos aproxima da poesia, dos homens,de Deus.

Filosofia e Poesia são irmãs siamesas?

De acordo! Desde que a Filosofia desça um pouco de seus saltos altos...O mal da filosofia é levar-se excessivamente a sério. Quando o filósofo arrebita o nariz , e toma uns ares de que sabe tudo porque é capaz de manipular todas as palavras, a filosofia desmorona. Ela soçobra! A boa Filosofia, a grande Filosofia, respeita a poesia, e até se inspira nela.Heidegger viu isso.O jovem poeta precisa ler grandes filósofos. Também filósofos da linguagem, como Gaston Bachelard.

Quais as novidades na sua poesia?

Isso não cabe a mim. A Bíblia diz: "Seja outro a falar de ti!" Obviamente, a Bíblia quer excluir elogios infundados...de culto à personalidade. A vaidade é ruim para qualquer poeta, principalmente para os bons..Não sou muito de novidades. Como apreciar novidades se os homens falam desde que se tornaram humanos? É preciso pensar mais na tradição, no que herdamos dos grandíssimos poetas do passado. Até porque sobrevalorizamos os poetas de hoje. É uma de gênio para cá, de gênio para lá, etc.Não temos tantos gênios como se afirma por aí. Harold Bloom fez uma lista de 100 Gênios, e eu pessoalmente, nem sempre estou de acordo com a lista dele. Existem poetas - e romancistas - que não entram no gosto popular, nem na mídia. São gênios de verdade. Gênios, porém, ignorados! Gênios esnobados...

E os temas eróticos na Poesia?
Diego, vou te contar uma anedota famosa. Diz-se que um indivíduo perguntou a Aristóteles porque todo o mundo gosta de mulheres bonitas, de casas bonitas, de flores bonitas, até de nuvens bonitas - era o caso do Quintana! Bem, o Aristóteles, que era tudo, menos um filósofo de salto alto, respondeu com indesculpável bom senso:"Mas, meu filho, essa pergunta só pode ser feita por um cego..."

Quanto ao rebuscamento de linguagem na poesia: até que ponto deve haver?

Rebuscamento é uma coisa, busca de linguagem aprimorada, sonora, capaz de produzir explosões imaginativas e emotivas, é outra. Sou um apaixonado pela linguagem precisa, a que diz mais com menos.O arquiteto Mies van der Rohe ficou famoso com sua frase: "O menos é o mais!" É verdade que aprecio também a linguagem barroca quando não é farfalhuda, chocha, efervescente. Existe uma linguagem barroca que é uma maravilha! Mas, refletindo sobre isso, acrescentaria: São poucos os escritores barrocos da atualidade que me encantam! Um García Márquez? Sem dúvida. Um Guimarães Rosa? Também. Mas Guimarães Rosa já é para os membros da Confraria do Vinho dos Cavaleiros de Tastevin. Quantos s]ão capazes de degustar Guimarães Rosa? A maioria faz de conta. Em relação a Joyce e outros, nem falemos.São relativamente raros os leitores que têm cacife para lê-los. Em termpo: será que esses tais gênios barrocos não se enfatuaram um pouco? Será que não se embebedaram consigo mesmo?

Deus, uma licença poética?

Por favor, Diego, não me...aporrinhe! Perdoe-me a expressão. Não gosto de ofender, ou diminuir as pessoas. Foi a primeira pergunta sua que me desagradou. Não se pode falar de Deus assim. Está na moda, agora,que todo o mundo é expert em Deus!! Nunca imaginaei que a Escritura teria tantas confirmações de uma sua sentença sálmica: "Diz o insensato no seu coração: Não há Deus". Deus não é nenhuma licença poética, nem outra invenção humana. fNão nos explicamos sem Ele. Nem sem Ele podemos encontrar aquele mínimo de felicidade que buscamos. Se alguém está convicto de que Deus não existe, desconfie ao menos de si, da possibilidade de estar equivocado. Não se apresse. A vida pode reservar-lhe surpresas, encontros, descobertas.Sobretudo, pode reservar-lhe um insight. Onde? Numa esquina. num bar, numa alcova... Caso não haja insigth, a criatura humana deve suspeitar que Ele, por ser Amor, dará um jeito de não estar ausente a nenhum homem, não digo na hora da morte, mas na hora mais decisiva de sua vida. Pode ser na hora de uma paixão, de um amor arrasador, mesmo de natureza corporal! Tenhamos a humildade de deixar o horário à escolha Dele! E, naturalmente, tenhamos a humildade muito maior de dizer, alguma vez na vida: "Gostaria de Te conhecer mais!"

Poesia - escrita ou oral?

As duas! A poesia nasceu como oralidade. A poesia escrita é uma decorrência da invenção da escrita.Uma forma de guardá-la viva, não numa gaiola, mas num beiral, na rua, numa mesa, na areia do mar...Pode-se encontrar um poema escrfito até numa toalete. Quando se encontrarem espécimes de poesia verdadeira em tais lugares, enchamos os céus de Porto Alegre de foguetes! Haverá um pouco menos de grosseria na capital, um pouco menos de agressividade e violência, de loucura e ganâncias entre nós. Escrever poesia é um ato de respeito para com os outros. Imaginem vocês se alguém não tivesse escrito as partituras de Mozart e de Beethoven? Eu morreria de tristeza!


*Publicada originalmente para o projeto Poemas no Ônibus.

quinta-feira, março 01, 2012

SITE ARTISTAS GAÚCHOS

No site Artistas Gaúchos, Diego Petrarca. Entre outros artistas da música, ilustração, cinema, literatura, artes plásticas e fotografia. Confira lá:



domingo, fevereiro 26, 2012

OFICINA LITERÁRIA NO ESPAÇO PLATAFORMA


Confira os cursos de 2012 no Plataforma Espaço de Criação, entre outros, o segundo módulo da Oficina Literária Trânsito Entre Gêneros, ministrada por Diego Petrarca.


quinta-feira, fevereiro 16, 2012

ENTREVISTA COM DIEGO PETRARCA

Entrevista para o site sobre arte O CAFÉ, realizada pelo poeta João Pedro Wapler com Diego Petrarca, confira essa radiografia poética no link http://is.gd/fu3Riq.



quarta-feira, fevereiro 15, 2012

OFICINA LITERÁRIA NA CASA DE CULTURA

Estão abertas as inscrições para a Oficina Literária A Poesia fora do Poema, ministrada por Diego Petrarca. São 10 vagas e a inscrição é gratuita.

Confira no site: http://is.gd/21lFSo






terça-feira, fevereiro 14, 2012

BREVÍSSIMO PERCURSO DO HAICAI





Curiosamente, o haicai apareceu num poema com mais de três versos, dentro do gênero Tanka, poema curto tradicional japonês formado por 5 versos e 31 sílabas. A primeira parte do Tanka é um terceto e a segunda, um dueto. Antes de o haicai constituir-se numa expressão autônoma, era parte integrante do Tanka.

A popularidade do terceto assim como a sua independência do poema de 5 versos, foi acontecendo através dos tempos. Matsuó Bashô, ao renunciar a vida de Samurai e tornar-se um monge andarilho, eleva o haicai à condição de caminho da poesia (kadô), acrescentando a sua visão zen a criação poética. Em seguida, Buson, Kobayashi Issa e Massoka Shiki, responsáveis pela codificação definitiva do gênero, estabelecem novos padrões para o terceto, seguindo a escola de Bashô. A partir desse período o poema ganha vida própria e começa a ser praticado como forma original no Japão. Shiki é quem nomeia o terceto de haiku, (um híbrido de haikai e hokku), estabelece as regras clássicas para o poema, como as conhecidas dezessete sílabas ou fonemas, a integração com a natureza e referência a alguma estação do ano.

No Brasil, o já abrasileirado haicai, tem os primeiros sinais a partir das traduções de Monteiro Lobato em seu jornal no interior de São Paulo, em que era editor. O crítico literário Afrânio Peixoto, após a chegada dos primeiros imigrantes japoneses no Brasil, identificou o formato à brasileira com os conhecidos três versos em cinco, sete e cinco sílabas, respectivamente. Pode-se dizer que os primeiros escritos com a forma do haicai em terras brasileiras começou via modernismo deflagrado pela semana de 22. Nesse sentido, talvez os modernistas pretendessem incorporar o haicai como uma de suas práticas criativas com a poesia, a semelhança com o poema japonês estava no terceto enxuto e bem humorado, na linha poema-piada, com a ousadia coloquial e o despojamento inaugurado pela linguagem modernista. Há quem diga que esses textos não são propriamente haicais, outros defendem a ideia de que pela semelhança construtiva pode-se reconhecer nesses poemas modernistas uma continuidade dos princípios do haicai (brevidade e leveza), por exemplo, também praticados pelos poetas marginais dos anos 70, que levaram a tona as práticas modernistas com poemas breves e ágeis na linguagem.

O haicai era também debatido entre os autores modernos. Luís Aranha criou haicais em sua obra Cocktails. No livro A escrava que não era Isaura, Mário de Andrade mencionou influência do hanka e o haicai como “certos gêneros japoneses” em sua poesia. Oswald de Andrade, em muitos dos seus poemas, opta pela brevidade e textos curtos (muitos em terceto), tornando-se uma de suas marcas poéticas assim como uma das forças expressivas do próprio modernismo.

Na poesia moderna, o haicai é popularizado no Brasil, espalha-se na produção de vários autores e afirma-se como uma possibilidade criativa. Carlos Drummond de Andrade produz tercetos em seu livro de estréia, além de publicar haicais em revistas literárias e praticar a forma breve ao longo de sua obra poética. Outro modernista, Manuel Bandeira, além de traduzir haicais mencionou o gênero em seus versos de circunstância. Guilherme de Almeida conceitua a forma abrasileirada e divulga o haicai em seus artigos. Guimarães Rosa, em seu único livro de poesia, Magma, dedica uma parte com nove tercetos intitulados Hai-kais. O poeta Waldomiro Siqueira Jr, publica um livro inteiro de haicais. Mário Quintana adota a forma em seu livro Sapato Florido com o Haicai da cozinheira. O autor Millôr Fernandes recria o haicai acrescentando o tom humorístico ao formato.

Na poesia dita pós-moderna, o haicai está adotado como uma forma definitiva no Brasil, a ponto do gênero parecer propício a esse período em que a rapidez da informação e a comunicação visual salientam-se. O texto conciso com uma certa graça estética são critérios importantes para leitores. Paulo Leminski e Alice Ruiz são nomes fundamentais nesse período. Leminski não foi apenas um praticante do haicai mais um especialista, tradutor e difusor do gênero no Brasil, além de colaborar com a adaptação do haicai a novos tempos, em que a brevidade agora convivia com a surpresa e novidade do sentido, a sonoridade, a rima, características que não estavam no conceito clássico do gênero.

Nesse sentido, a prática do haicai nas últimas décadas contribuiu para a transformação e desdobramento do gênero em outras dicções, possibilidades e resultados poéticos. De certa forma, todo texto com três versos ou pouco mais, naturalmente já se autoriza, mesmo que equivocadamente, como sendo haicai, sintoma de que o gênero há tempo já está incorporado à poesia brasileira, sendo matéria obrigatória de criação.

Os poemas desse livro reconhecem a percurso do haicai no Brasil via modernismo, integrados aos recursos que transformaram o haicai clássico num poema que fortalece a tradição do gênero.


*Texto que integra o livro Vento & Avenca, a ser lançado brevemente. 

domingo, fevereiro 05, 2012

LADODENTRO ENTREVISTA - MANOEL DE BARROS

Harmonia é uma arquitetura
do silêncio


Manoel de Barros nasceu em Cuiabá (MT) no Beco da Marinha, beira do Rio Cuiabá, em 19 de dezembro de 1916, filho de João Venceslau Barros, capataz com influência naquela região. Mudou-se para Corumbá (MS), onde se fixou de tal forma que chegou a ser considerado corumbaense. Atualmente mora em Campo Grande (MS). É advogado, fazendeiro e poeta.

LADODENTRO traz uma entrevista inédita com o poeta que atualmente mais vende livros de poesia no Brasil, numa combinação nem sempre comum entre qualidade e quantidade editorial. Em respostas breves e iluminadas, algumas que inclusive até parecem pintadas com a mesma cor de seus versos, Manoel de Barros comenta sua escrita e abordagens poéticas.

Comparado e elogiado por Guimarães Rosa, o poeta de Cuiabá revolucionou a literatura brasileira, carregando a poesia moderna de subversão e novidades semânticas.

Entre suas conquistas de linguagem, o poeta foi agraciado com o “Prêmio Orlando Dantas” em 1960, conferido pela Academia Brasileira de Letras ao livro Compêndio para uso dos pássaros. Em 1969 recebeu o Prêmio da Fundação Cultural do Distrito Federal pela obra Gramática expositiva do chão e, em 1997, o Livro sobre nada recebeu o Prêmio Nestlé, de âmbito nacional. Em 1998, recebeu o Prêmio Cecília Meireles (literatura/poesia), concedido pelo Ministério da Cultura.

Foi Millôr Fernandes quem chamou a atenção para o poeta que hoje é reconhecido nacional e internacionalmente como um dos mais originais do século e mais importantes do Brasil. O belíssimo filme Só dez por cento é mentira, de Pedro Cezar , lançado abril de 2008, traz um documentário sobre a vida do poeta e sua escrita inovadora. O título do filme refere-se a uma frase de Manoel de Barros: "Noventa por cento do que escrevo é invenção. Só dez por cento é mentira".
Confira o link do filme: http://www.sodez.com.br/


Manoel de Barros voa fora da asa, e seus leitores agradecem a didática da sua invenção.



Sua poesia parte da utilização de um novo léxico, a ponto de ser considerada uma poesia de invenção. Essa escolha estética partiu de quais motivações?

Acho que é de fato uma invenção a minha poesia. Invento para me conhecer.

O Pantanal passou a ser seu tema, a ponto de você materializar em linguagem aspectos dessa região. Nesse sentido, você pretendeu ser um porta voz do Pantanal ou da natureza?

Sou pantaneiro de chapa e cruz – como se diz lá em Cuiabá. Mas a minha palavra não tem cara de ecologia. Acho que minha linguagem procura mais a estética. Poeta é um ser de linguagem e não de paisagem. Meu caso é natureza.

Seu livro Matéria de Poesia, e o poema Didática da Invenção, são dois exemplos cruciais da sua visão metalinguística da poesia. Você sente ainda hoje a necessidade de "apresentar" as bases da sua poesia?

Não sinto essa necessidade; mas gosto quando alguém me acha metalinguístico

A desimportância da poesia pode ser considerada sua grande utilidade?

Dou muita importância às coisas desimportantes: às rimas, às formigas que tem a sabedoria da terra. Gosto do nada com profundidade.

Quando você é comparado a Guimarães Rosa (neologismos), você concorda que a aproximação entre a prosa e a poesia, em termos de linguagem, podem se misturar?

Tenho um certo orgulho de ser comparado ao Rosa. Mas acho que ele tem um poder lexical de invenção, que me impressiona. Eu fico olhando pro meu pé.

O que você acha da ideia da poesia circular fora dos livros, em cartazes, videotexto, etc...


Acho uma ideia! No tempo que eu era guri no Rio, eu lia nos bondes: “Rim doente? Toma urudonal e viva contente.” Citei esse fato porque acho que a poesia pode ser mais entendida e gostada nos bondes. Acho!

Na sua visão, o que mais cativa o leitor em sua escrita?

Talvez uma inversão de palavras para uma visão nova. Pode ser?

Algumas influências artísticas em sua poesia que atuam fora da literatura?

Influência que senti em minha linguagem foi conhecer Rimbaud, que sugeria o imenso desregramento de todos os sentidos: “Eu escutei a cor de um pássaro.” Total mistura dos sentidos.

A instabilidade semântica que carrega a sua poesia de certo modo é uma atitude modernista perante a palavra escrita?

Acho que o cinema. Gosto de fazer desenhos verbais de imagens.

A leitura da poesia em voz alta é algo que lhe agrada?

Não. Sempre a voz alta omite a harmonia. Harmonia é uma arquitetura do silêncio.

Por que devemos considerar as possibilidades que a poesia permite?

A natureza pode ser renovada. Assim: “Eu vi um sapo com olhar de árvore”. Isso não renova?

domingo, janeiro 22, 2012

NASCER EM MILONGAS URBANAS


Ouça algumas canções do cd Milongas Urbanas, do músico Jéferson Dantas, de Florianópolis. O trabalho está em fase de finalização. Jéferson musicou um poema de Diego Petrarca do livro Via Cinemascope, de 2004, que integra o projeto do disco. O poema, publicado originalmene em 2004, ganhou um formato visual na página, respeitando a proposta do livro de sugerir outros modelos gráficos para o texto. Não havia título, na composição de Jéferson Dantas ele foi batizado de Nascer.

Confira essa letra de Diego Petrarca e outras canções do Cd Milongas Urbanas:

sexta-feira, janeiro 06, 2012

DATILOSCRITO DE RENATO RUSSO




A peça datiloscrita acima é um material raro do poeta da canção Renato Russo, disponível no site oficial do compositor entre outras peças raras do processo de produção e criação do líder da Legião Urbana, confira o link http://is.gd/aa6TSx. Certamente esse conteúdo é do período do Trovador Solitário, entre fins dos anos 70 e começo dos 80. Percebe-se logo na primeira estrofe do poema a frase clássica da canção Tempo Perdido, do disco Dois, de 1986, cuja primeira versão e esboço é de 1977. Na última estrofe, dois versos presentes na canção Uma Outra Estação, do disco homônimo e póstumo, de 1997, gravado nas sessões do disco A tempestade, de 1996. A peça datilografada é um poema em sua unidade, não virou canção, talvez você parte de uma composição para ser musicada, mas ficou como está. Uma peça rara poética de Renato Russo.

Interessante perceber que o original revela o processo composicional de Renato, algo fragmentado, peças e versos presentes em canções da Legião com períodos bem distintos, mas formando um texto independente. Pode-se também registrar que o processo criativo de Renato Russo eram anotações, pedaços editados, que formariam textos, poemas e até canções. A frase e o verso tratados como matérias pertinentes para mais de uma composição, em versões diferentes. Por exemplo, o verso "Ninguém vai me dizer o que sentir" está presente em duas canções diferentes: Soul Parsifal (1996) e Hoje (1993) gravada por Leila Pinheiro e resgatada com a voz de Renato Russo no disco Presente (2003), com material raro.

A descoberta desses textos que refletem partes das canções, mas ainda sim um poema novo, com força na página, sem o auxílio melódico, resgata a poesia de Renato Russo sempre viva, e para além da canção.

sábado, dezembro 24, 2011

ANIMAIS POEMAS









O livro Animais, de Arnaldo Antunes e Zaba Moreau, foi sendo concebido durante as gestações dos 4 filhos dos autores, que foram casados 15 anos. Em 1988 começou a produção desse trabalho e agora está sendo lançado pela Editora 34 numa série infanto juvenil. Mas também comovem adultos interessados nas surpresas da linguagem, afinal foi o poeta modernista Oswald de Andrade quem sentenciou: Aprendi com meu filho de 8 anos que a  poesia é a descoberta das oisas que eu nunca vi.

O livro reúne texto e imagem, todas xilogravuras do grupo  Xiloceasa. O trabalho foi lançado em outubro. Cada poema apresenta uma palavra montagem que a ilustração repersenta também num processo de desenho-montagem. Neologismos que sugerem o nome de algum animal e a suspresa do vocábulo: Giralta (remete ao animal girafa assim como uma de suas caracterísiticas, a altura). Ovelã, o animal e sua característica. Ou então Serponte, a serpente que, pelo seu cumprimento, remete a  uma ponte. Livrélula, por exemplo, monta a palavra livro com libélula sem a ver uma relação direta entre os elementos, mas parte da sugestão da palavra.

Um híbrido de texto e imagem que inventam animais trasmutados em poemas, a ilustração representa a figura dessa montagem. Mais um trabalho poético de Arnaldo Antunes, em que a surpresa sintática/semântica convivem sempre criativamente.

quinta-feira, dezembro 22, 2011

A CURVA DA CINTURA




Arnaldo Antunes e Edgar Scandurra estão lançando disco juntos. Trata-se de Curva da Cintura, lançado no início de dezembro. Desde 2009 o guitarrista Edgar Scandura estava acompanhando Arnaldo Antunes em sua turnê do disco Iê Iê Iê. A partir daquele ano iniciram um repertório em parceria. O resultado é esse trabalho com canções inéditas compostas pelos dois, letras de Arnaldo e músicas de Scandurra.

A ideia de fazer o disco foi durante uma série de shows minimalistas que os dois foram apresentando entre 2009 e 2010. A parceria já existe de longa data e agora foi concretizada em disco e repertório especialmente para A Curva da Cintura.

Para o disco, os compositores contaram com o trabalho e experiência musical do africano Toumani Diabaté, que costura o disco com seu instrumento típico da região de Mali, a Kora, uma harpa de 12 cordas que é símbolo cultural daquela terra. Após um show no Rio de Janeiro que os três artistas dividiram, nasceu a ideia de fazer um trabalho coletivo.

As gravações foram realizadas entre São Paulo e Bamako, capital de Mali, onde mora o músico africano. O resultado foi um cd e Dvd lançados juntos. O cd traz 11 parcerias novíssimas de Arnaldo Antunes e Scandurra. Letras inspiradas de Arnaldo, que carrega na poesia, entre canções líricas, metamusicais, entre outras, e as guitarras de Edgar Scandurra, tudo pontuado pela Kora de Toumani. Há também uma parceria de Arnaldo com o músico de Mali, além de faixas instrumentais compostas pelo africano. Também peças solo do ex guitarrista do Ira! e uma parceria de Arnaldo com Paulo Miklos e Liminha, Grãos de Chão.

O conceito do trabalho composicional de Arnaldo e Scandurra vem somado a uma integração África/Brasil pela presença do instrumentista e pelo clima que a Kora acentua ao disco. O dvd, que acompanha o disco, exibe um belo documentário onde a produção/gravação do cd aparecem junto com a convivência e integração dos artistas brasileiros em terras africanas: a interação com o povo e diálogo artísitco com Toumani e outros artistas da região. Outro trabalho sensacional para fechar o ano de 2011. A Curva da Cintura.

http://www.acurvadacintura.com.br/


Que me continua (Arnaldo/Scandurra)

Se ando cheio, me dilua.
Se estou no meio, conclua.
Se perco o freio, me obstrua.
Se me arruinei, reconstrua.

Se sou um fruto, me roa.
Se viro um muro, me rua.
Se te machuco, me doa.
Se sou futuro, evolua.

Você que me continua.

Se eu não crescer, me destrua.
Se eu obcecar, me distraia.
Se me ganhar, distribua.
Se me perder, subtraia.

Se estou no céu, me abençoe.
Se eu sou seu, me possua.
Se dou um duro, me sue.
Se sou tão puro, polua.

Você que me continua.

Se sou voraz, me sacie.
Se for demais, atenue.
Se fico atrás, assobie.
Se estou em paz, tumultue.

Se eu agonio, me alivie.
Se me entedio, me dê rua.
Se te bloqueio, desvie.
Se dou recheio, usufrua.

quinta-feira, dezembro 15, 2011

RECANTO - GAL & CAETANO




No dia 06 de dezembro de 2011 foi lançado o disco Recanto, de Gal Costa, após 5 anos sem a cantora produzir nenhum novo material. O trabalho, traz 9 canções novas de Caetano Veloso, que também assina a produção do disco. Além das canções inéditas, outras duas compõe o cd: a belíssima Mansidão, composta originalmente para Jane Duboc em 1982, uma melodia doce com letra leve e positiva. A outra, Madre Deus, foi lançada em 2005 para o balé do grupo Corpo, no disco Oqontô, de Caetano e Wisnik.


Gal Costa junto com Maria Bethânia são as cantoras que mais gravaram Caetano, o repertório de canções que cada uma registrou do cantor preencheria mais que um disco duplo, por isso é natural que Gal Costa faça esse trabalho praticamente em parceria com seu companheiro de trajetória. Além das inúmeras canções gravadas por Gal com assinatura de Caetano, os dois trabalharam juntos na Tropicália, no exílio era Gal que trazia as novas de Veloso para o Brasil, entre 70 e 71. Depois Caetano prodziu o disco Cantar, em 1974, além da turnê e disco Doces Bárbaros, em 1976. Muitas dessas canções caetano compôs especialmente para a voz de Gal, sem nunca ter gravado grande parte delas.

A novidade do novo trabalho, Recanto, são as 9 canções inéditas saídas do forno compostas especialmente para o conceito do disco, trata-se de um trabalho composicional de Caetano que Gal Costa interpreta e incorpora. Em 2012, durante a turnê do disco, Caetano assinará também a direção do show. Esse trabalho coletivo é uma das forças do disco, forma ideal de trazer uma das maiores cantoras do Brasil a tona novamente. A outra novidade é a pegada eletrônica sendo o elemento musical mais importante do disco, que permeia seu conceito. A equipe que Caetano escalou para compor programações eletrônicas adaptadas a voz de Gal, colaborou com a roupagem moderna para as faixas. Os responsáveis pelo conteúdo eletrônico, Kassin e Moreno Veloso, entre outros, foram fundamentais para esse tom eletro incorporado a voz de Gal. Foi uma forma também de renovar os contornos musicais da cantora.

As letras, concisas e abstratas, estão centralizadas no encarte do disco. O texto de Caetano para ter tentado um novo estilo, em que a as frases diretas e enxutas carregam na metáfora, parece um esboço de uma nova textura poética sublinhadas pela voz de Gal, merecem destaque.

Recanto Escuro e Tudo dói são radiografias biográficas escritas para Gal declamar. As duas pontas que costuram o disco. Sexo e dinheiro e Cara do mundo apresentam o discurso poético renovado de Caetano. Autotune autoerotico e Miami Maculele são as faixas mais condicionadas ao elemento eletrônico, as letras preenchem o que a pegada eletrônica sugere. Essa última apresenta a voz de Caetano como pano de fundo cantando em voz modificada num tom de funk carioca, uma surpresa. O menino foi feita para Gal e seu filho adotivo e Segunda, que fecha o disco, relata a forma baiana de encarar a segunda feira. A canção Neguinho, lançada primeiro que as outras, é um retrato contemporâneo da ascenção social centrada no personagem Neguinho, que mora na favela carioca.

A contracapa traz uma foto emblemática da dupla em Londres, em 1970, durante o festival da ilha de Wight. Um belo presente de fim de ano para fãs tropicalistas.



CARA DO MUNDO

Cara do mundo, cara de peixe-boi
Cara de tudo, cara do que já foi
Pássaro azul, deserto-jardim, presunto
Músculo nu num filme ruim, soluço
Cara de cobra, cara de beija-flor
Cara de cara, cara do meu amor

Cara do mundo, vim te reconhecer
Cara de muito, dor de tanto prazer
Abro meus olhos, abro meus braços, longe
Fecho meu punho, fecho meu coração
Cara de tempo, cara de escuridão
Asa do vento, olho de sol, clarão

Cara do mundo, máscara de carvão
Máscara clara, rosto de multidão
Gozo em te ver tão cara a cara assim
Posso meter máscara clara em mim
Cara do mundo, hálito de maçã
Cor de abacate, amargor de alumã







domingo, dezembro 11, 2011

LADODENTRO ENTREVISTA - CLAÚDIO WILLER




O poeta e tradutor Cláudio Willer respondeu algumas perguntas sobre  poesia e criação. O responsável pela tradução e inserção da obra de Allen Ginsberg no Brasil e o intelectual mais especializado em literatura beat no país, fala a respeito da movimentação poética da cena paulistana das décadas de 60 e 70, recentemente lançadas no livro Dentes da Memória, das jornalistas Camila Hungria e Renata D´Elia, que traçam um belo painel da produção poética naquele período, em que Willer era um dos expoentes. O autor também comenta a nítida influência do movimento beat em sua poesia e as questões da produção contemporânea do gênero hoje em dia. Confira.

Como você observa essa recuperação da movimentação poética dos anos 60/70 na cidade de São Paulo, em que era um dos expoentes? normalmente o foco desse período de poesia no Brasil é o RJ, mas existe muita história e uma característica muito clara dos conceitos da turma liderada por você e Piva, por exemplo, o nítido comportamento/influência Beat.

Sim. Mas veja que a movimentação no Rio, por volta de 1960, não era tão grande assim, havia mais atividades ligadas à poesia em São Paulo. E Rio era algo tradicionalista, se comparado a São Paulo. Rio vai ferver na década seguinte, com os marginais.

A resistência acadêmica a produção poética da turma de São Paulo existiu, você atribui essa resistência a um certo desregramento que vocês de certo modo cultivavam para salientar essa postura contracultural vigente naquele período? ou seja, o desregramento como um item fundamental no conceito daquela poesia contrbuiu para a academia não considerar aquela movimentação?

Sim – ou será que não havia malucos aceitáveis para o ‘establishment’? Acho que o modo de expressar-se, de escrever, estranho aos cânones, provocou estranheza. Até hoje, tem gente literariamente culta que me acha ininteligível. Eu me acho tão evidente, tão transparente...

Por que a identificação direta com Allen Ginsberg, na opção de especializar-se na tradução da sua obra no Brasil e também como principal referência para a identidade da poesia que veio a desenvolver naquele período em São Paulo?

Principalmente, por ser a Geração Beat um movimento importantíssimo, inovador e substancioso. Se não fosse, não ia conseguir continuar escrevendo a respeito, achando mais assunto para produzir ensaios. E Ginsberg foi um poeta enorme – na escala do valor literário, inseparável, no caso dele, da rebelião. Assimilamos a beat em primeira mão, já em 1960/61. O intertexto de Paranóia de Piva com Ginsberg, Corso e outros beats é evidente.

Como você responde aos questionamentos previsíveis de que a poesia beat vacila na espontaneidade exagerada, na confusão vida e obra e do desapego a uma forma mais rigorosa na escrita do gênero?

Acho que esses questionamentos nada tem a ver com valor literário. Reclamar de confusão de vida e obra é absolutamente reacionário. Querer forma mais rigorosa é cosia de formalistas. Interessa se a obra é substanciosa, e isso nada tem a ver com a confusão de biografia e expressão, ou o modo de criar, mais espontâneo ou mais pensado. Além disso, Ginsberg copidescou bastante Uivo e Kaddish. E algumas das obras de Kerouac, ele levou anos para escrevê-las.

A Feira de Poesia no Municipal, as edições artesanais de Massao Ohno, a Antologia dos Novíssimos, foram as principais atividades de divulgação da poesia paulista anos 60/70? ou destacaria algumas outras? e nesse sentido não houve uma organização com o objetivo de organizar algum movimento mais definido que destacasse as propostas estéticas do grupo? por esse aspecto você incorpora a legenda poesia marginal para caracterizar o trabalho dessa turma naquele período?

Foram as principais? Ou precisamos de uma perspectiva histórica mais extensa? Talvez, retomar o assunto daqui a 50 anos? As edições de Massao não eram artesanais. Fazia livros de qualidade, impressos em gráficas, igual a qualquer outra editora. A distribuição é que era limitada, por motivos óbvios.

Em momento algum houve algum diálogo com os poetas concretos? afinal, por mais diferentes que fossem as propostas poéticas, havia um elo em comum: algum tipo de subversão e renovação da poesia brasileira.

Poesia concreta, em seu momento de afirmação, representava tudo o que não suportávamos: era cerebral, burocrática. E havia os erros evidentes, a idéia de que revolução tecnológica ia modificar o signo, etc. Pessoalmente, minha relação com Haroldo era cordial, e outro diz compus uma mesa junto com Augusto. Claro que converso com concretos.

Os livros Paranóia, de Piva e Anotações para um Apocalipse, seu livro de estréia também, foram escritos levando em conta quais critérios básicos, tanto no plano formal, estético, de linguagem? exisitia alguma meta específica para além do lançamento de uma poesia afiada com a linguagem beat?

Acho que escrevemos aquilo que tínhamos vontade de escrever. E a beat era uma das referências, líamos muito mais. Para mim, no plano da criação, surrealismo foi mais importante.

Durante as entrevistas para o livro Dentes da Memória, você resgatou sua trajetória como poeta e pensador da poesia brasileira assim como reavaliou um período importante para a história recente do gênero no país. Quais daqueles impulsos (lembrando o nutrir-se de Pound) ainda estão firmes hoje em dia em sua atividade?

Ambos ... Publiquei dois livros de ensaio, ‘Geração beat’ em 2009 e ‘Um obscuro encanto: gnose, gnosticismo e a poesia moderna’, em 2010, e estou esperando que saia meu próximo livro de poesia, ‘A verdadeira história do século XX’, pela ed. Demônio Negro.

O poeta de hoje não está longe da condição daquelas décadas: restrição editorial, editoras por demanda como opção, resistência da mídia numa veiculação da poesia e um hibridismo de formas. Nesse sentido, o movimento beat é um prato cheio para as referências que levam em conta esse contexto? ou seja, a postura beat é plenamente adequada a prática da poesia recente no Brasil?

Quando me perguntam sobre poesia e mercado, sempre observo que do tempo de Baudelaire para cá continua tudo do mesmo jeito. Nenhuma de suas críticas perdeu validade ou atualidade. Postura beat originou a contracultura, que por sua vez contribuiu para uma maior abertura nas sociedades modernas. Ou seja, constitui, em certa medida, o mundo em que vivemos – ou alguns de seus aspectos e dimensões mais interessantes.