Toninho Vaz é especialista em biografar poetas malditos. Sua biografia O bandido que sabia latim, de 2003, aborda a vida e a obra de Paulo Leminski. Em 2005, foi a vez do poeta e letrista Torquato Neto voltar a ser falado graças a pesquisa de Toninho Vaz, jornalista curitibano muito atento aos artistas da contracultura. A segunda edição de Pra mim chega, atualiza a vida de um dos poetas mais relevantes dos anos 70, via Tropicalismo. O trabalho de Toninho é sério, informado e respeitoso, pelo menos essas duas biografias citadas são fundamentais para o entendimento e importância dessas personalidades poéticas do Brasil.
Na
sua opinião, qual as contribuições de Torquato Neto para a chamada poesia dos
anos 70, a Geração Mimeógrafo, que atribuí ao poeta uma influência para essa
movimentação poética da época?
Veja bem, antes temos que considerar que, a rigor, Torquato não construiu uma
poética, simplesmente porque nunca teve essa intenção. Ele não planejava
publicar um livro com suas poesias, razão pela qual a primeira reunião dos seus
escritos vai surgir depois de sua morte, reunidos em “Os últimos dias de paupéria”,
editado pela viúva Ana e pelo amigo Waly Salomão. Mas, obviamente, ele era um
grande poeta como considerava ser: “Um poeta não se faz com versos”, dizia.
Alguns
nomes importantes para a história de Torquato Neto acabaram não colaborando com
a sua biografia (o que obviamente fez falta em seu livro) na sua opinião, qual
o motivo de Bethânia, Gal, Gil, por exemplo, evitarem dar depoimentos?
O nome Torquato causa
desconforto em alguns tropicalistas, pois a amizade deles teve um desfecho radical,
marcado pelo desencontro. Eles se separaram do Torquato, mas não esperavam pelo
suicídio logo em seguida, configurando um trauma coletivo. Mas eles todos são
espiritualizados e provavelmente sabem o que aconteceu.
Torquato
Neto virou um ícone da contracultura no Brasil. Você considera que a figura do
autor de Geleia Geral ficou muito vinculada ao Tropicalismo e isso de algum
modo abafou outras atividades para as quais Torquato se dedicou e de algum
modo, conceituou?
Creio que o trabalho do Torquato foi interrompido muito precocemente, aos 27
anos (na verdade, na madrugada em que ele completou 28 anos) e ainda longe da
maturidade intelectual. Mas estamos falando dele até hoje, o que revela a
importância da sua incipiente produção intelectual. A Tropicália (ele preferia
chamar assim) foi a explosão do talento dos meninos criativos e mergulhados nos
melhores ambientes culturais. Para Torquato,
a experiência tropicalista somou com trabalhos feitos com músico de
outras áreas, como Edu Lobo e Nonato Buzar.
Você
reconhece na coluna de Torquato no jornal construções textuais comuns a sua poesia?
como se o texto da coluna fosse uma espécie de híbrido entre jornalismo e
poesia e daí a particularidade dessa coluna: ela acabou sendo a poesia que
Torquato encontrou realizar naquele período?
Certamente, muito da produção textual do Torquato vem da coluna Geleia Geral,
que transcendia ao jornalismo tradicional. Eu era leitor da Última Hora, em
Curitiba, e fui visivelmente influenciado pelo texto agressivo, inconformado e
combativo que ele apresentava. Algumas vezes comecei o texto da minha coluna no
Diário do Paraná com citações do tipo: “Como diria Torquato Neto, agora está
tudo certo, otário? O carnaval passou rapidamente e levou junto todos os
problemas?” A ironia a serviço do inconformismo.
Em
sua biografia aparece uma relação mais íntima entre Torquato e Caetano, você
acha muito simplista atribuir o afastamento deles devido a esse rumor? afinal
isso está na biografia de modo bem claro, afinal existe um motivo específico
desse afastamento entre eles?
Acho simplista, sim, pois como eu digo no livro, é bem possível que Torquato
estivesse dando motivos para este afastamento, desde que o alcoolismo se
acentuava e o consumo de drogas também. Mas ele não era inconsequente, um
porra-louca, era doente. De maneira inédita, o livro trás a revelação de um
diagnóstico médico de esquizofrenia.
Você
é o autor da excelente biografia de Paulo Leminski, que considerava Torquato
uma super influência em sua poesia. A respeito disso, como você percebe essa
voz de Torquato na formação poética de Leminski?
Sem nenhum planejamento acabei escrevendo a biografia dos dois poetas, naquilo
que eu chamo informalmente de minha “micro antologia biográfica dos malditos”,
palavra aqui sem conotação bíblica, mas sim numa referência aos poetas
franceses, assim chamados. Torquato e Leminski se pareciam, numa certa maneira,
respeitando-se as diferentes trajetórias. Eram radicais e autênticos.
Recentemente
a UFRGS admitiu o álbum conceitual da Tropicália como leitura obrigatória para
o vestibular, Torquato é um dos elementos que garante a possibilidade literária
nesse disco, por ser um poeta dentro do movimento. Além da canção Geleia Geral,
quais outras letras na sua opinião dão o recado real da proposta tropicalista?
Certamente “Louvação”, parceria com Gil, e
“Mamãe coragem” , parceria com Caetano. Correndo por fora da proposta
tropicalista, gosto muito de “Pra dizer adeus”, parceria com Edu Lobo.
A
Cia das Letras relançou a poesia completa Ana Cristina Cesar, Paulo Leminski e
agora Wally Salomão. Torquato Neto poderia estar nessa lista com total certeza,
no entanto, ela não via necessariamente no livro um suporte para a sua poesia,
fale a respeito disso, Torquato talvez tenha sido um pioneiro no sentido de
fazer poesia fora das páginas?
Talvez. Ele tinha outra maneira de ver a poesia, vivendo a vida poeticamente. Nunca
esteve mirando ser um poeta, digamos, formalmente. Mas os textos completos dele
já estão em livro, no recente “Torquatália”,
editado pela Rocco.
Da
obra ou produções de Torquato com a palavra criativa. quais Toninho Vaz destaca
enquanto leitor/biógrafo?
Eu gosto do conceito criado por ele para a revista NAVILOUCA, reunindo jovens
poetas daqueles anos conturbados, todos de vanguarda, incluindo os
“professores” Décio Pignatari e Augusto de Campos. A revista, entretanto, só
foi editada depois de sua morte. Considero um marco na poesia brasileira.