terça-feira, maio 13, 2014

ENTREVISTA POÉTICA - JUAREZ FONSECA

A primeira edição da Entrevista Poética 2014 na Livraria Saraiva do Praia de Belas com as histórias e conhecimentos musicais de Juarez Fonseca.









sábado, maio 03, 2014

BAMBUCILCOTECA

Mais uma edição do projeto Bambu Cicloteca (Cabaré do Verbo) no parque da redenção, mediação de Diego PetrarcaAndreia Laimer e as participações do Bando Hoburaco, nas intervenções com leitura. Agradecimento as pessoas que compartilharam histórias e colaboraram com a troca de livros. E aos bandoleiros Delma Gonçalves, João Alberto Luiz, Paulo Ohar e Bernadete Saidelles.








sexta-feira, maio 02, 2014

LADODENTRO ENTREVISTA - NICOLAS BEHR





O que empobrece o salto poético 
é não ter coragem de saltar.


Entrevista com o poeta Nicolas Behr. Ícone da poesia alternativa dos anos 70 e 80, tem na cidade de Brasília um dos signos da sua poética. O poeta desenvolve em sua poesia uma comunicação ágil, tal qual o melhor modernismo de 22. Os suportes da sua poesia vão além do livro e a habilidade do seu artesanato verbal faz a poesia e refletir o cotidiano. A poesia de Nicolas Behr é crônica em verso livre. Poemas visuais, discursivos, breves e ligeiros, são a identidade polifônica de um dos poetas mais importantes e sua geração.

Brasília é a incapacidade 
do contato afetivo 
entre a laje e o concreto

Nicolas Behr (Nikolaus von Behr) nasceu em Cuiabá, em 1958. Em 1977 lançou seu primeiro livrinho e  “ Iogurte com Farinha, em mimeógrafo, tendo vendido 8.000 exemplares de mão em mão. Em agosto de 1978, após ter escrito Grande Circular, Caroço de Goiaba e Chá com Porrada, foi preso e processado pelo DOPS por “ porte de material pornográfico”, sendo julgado e absolvido no ano seguinte. Até 1980, publicou ainda 10 livrinhos mimeografados. 

A partir desse ano passou a trabalhar como redator em agências de publicidade. Em 1982 ajudou a fundar o MOVE – Movimento Ecológico de Brasília, a primeira ONG ambientalista da Capital Federal. Em 1986 abandonou a publicidade para trabalhar na FUNATURA – Fundação Pró-Natureza – onde ficou até 1990, dedicando-se, desde então, profissionalmente, ao seu antigo hobby: produção de espécies nativas do cerrado. 

Voltou a publicar seus livros de poesia, com Porque Construí Braxília. É sócio- proprietário da Pau-Brasilia Viveiro Eco.loja, casado, desde 1986, com Alcina Ramalho e tem três filhos: Erik, Klaus e Max. Teve o seu perfil biográfico traçado pelo jornalista Carlos Marcelo no livro  Nicolas Behr – Eu Engoli Brasília, publicado em 2004. A jornalista Gilda Furiati defendeu tese de mestrado no Instituto de Letras da Universidade de Brasília em 2007 sob o título: Brasília na poesia de Nicolas Behr: idealização, utopia e crítica, editada em livro pela Editora UnB em 2012. 

Em 2008 seu livro Laranja Seleta – poesia escolhida – 1977 – 2007  pela editora Língua Geral, foi finalista do Prêmio Portugal Telecom de Literatura

http://www.nicolasbehr.com.br



Você é considerado um dos representantes da poesia marginal (no sentido da produção alternativa) dos anos 70. Você chegou a ter um diálogo com os poetas do Rio ou São Paulo, onde essa movimentação se convencionou?

Sim, havia muita troca, era um movimento forte, e se publicava muito. Livrinho de mimeógrafo era uma mania. E era, talvez pela primeira vez. No Brasil, era muito fácil e barato produzir um livro. Usávamos fotocópias também. E os livrinhos circulavam muito, era uma febre. E isso foi muito bom, pois criou novos públicos pra poesia, democratizou a poesia, desmistificou bastante a imagem do poeta, zerando a distancia entre poeta e público, pois os poetas começaram a vender seus livros, em bares, portas de cinema, filas de teatro.

A cidade de Brasília é um dos seus temas mais recorrentes, até que ponto Brasília é um signo poético?

Brasília é a minha obsessão, isso está bem claro. E é também uma cidade poeticamente virgem, se escreve pouco sobre Brasília. Ela é um signo poético pois como cidade artificial que foi (veja bem, que foi) a poesia tem aqui o papel de humanizar a maquete. Por outro lado é fácil escrever sobre Brasília pois, ao contrario de outras cidades brasileiras, muito mais antigas, não temos aqui a sombra dos grandes poetas. Por exemplo, pra escrever sobre Recife você tem Manuel Bandeira e João Cabral. São Paulo, Mario de Andrade. Porto Alegre, Quintana. Rio de Janeiro, Vinicius. Isso nos dá muito mais liberdade para criar, pois se tem todo um mundo pela frente.

 Como você observa o fato do poema enquanto gênero veiculado fora dos livros, mudando de suporte? 

Dessacralizar o livro. Democratizar a poesia. Desmistificar o poeta. Tudo isso é parte de um mesmo movimento: fazer a poesia chegar mais perto das pessoas, vista aqui como instrumento de felicidade, sem as amarras teóricas da literatura. Poesia pra ser feliz.

Você editava seus livros independente das editoras convencionais, fale dessa experiência.

Até hoje edito. Isso cria uma relação orgânica entre o autor e o livro. O objeto livro, que não precisa de eletricidade, tomada, programa, computador pra funcionar. O livro é daquelas invenções perfeitas. Como a roda. Você dá novos usos, mas não consegue aperfeiçoar a roda. Blog se deleta, livro não. Talvez o livro se torne uma raridade no futuro, como o vinil é hoje, mas não tenho medo do e.book. Que vira, com certeza. Sou mais poeta da pagina do que da tela. Viva o livro!

O despojamento da linguagem, via Modernismo de 22 - Oswald de Andrade, foi uma continuidade e resgate da poesia contemporânea. Mas a coloquialidade exagerada no discurso pode empobrecer o salto poético? 

Tudo que se repete demais cansa. Mas não existe limite para a criação poética. Mas é preciso sempre estar reinventando os signos, os significados, não cair na mesmice e dar saltos criativos. Não se cria nada do nada. A criação é sempre junção de dois ou mais elementos que vão resultar num terceiro ou quarto. Tudo depende das novas associações que são criadas, quanto mais inusitadas, melhor. O que empobrece o salto poético é não ter coragem de saltar.

Seu contato com as flores é usado na poesia? - no sentido de aproveitamento do léxico, do tratamento poético da linguagem científica, da botânica.

Meu ganha-pão é o comercio de plantas. Na verdade, tudo pode ser usado na poesia. E tudo existe para terminar em livro. É importante para o poeta ter contato com tudo: historia, musica, botânica, cinema... Tudo. Tudo amplia os horizontes poéticos. Sair do seu nicho, do seu ninho. Sair da sua casca. Do seu meio, do seu conforto. Procurar outros ares. Acredito nisso.

A geração mimeógrafo tende a considerar Torquato Neto com um de seus mentores, você mesmo o cita em seus textos manifestos da época, de que forma esse autor te influenciou de forma engajada (na causa alternativa) e poética ao mesmo tempo?

Torquato Neto foi e continua sendo importantíssimo para todos os poetas. Pela sua transparência, pela sua postura, pela sua poesia na primeira pessoa. Pessoal e intransferível. Uma porrada. Poeta precisa mais de porrada do que de elogio. “Um poeta não se faz com versos”. Isso pra gente foi uma diretriz. A atitude do poeta como parte do poema, mesmo sabendo que um dia o poema vai ter que se virar por si mesmo.

O livro Beije-me pode ser considerado poesia fotográfica? ou seja, não-verbal, mas carregada de sentido?

Beije-me é um sucesso, está na segunda edição. A cultura brasileira é mais visual do que literária. E muito musical. E todo mundo gosta mais de olhar fotografia do que ler poemas. São poemas visuais, então.

Quando você lê as teses de mestrado que saem sobre sua criação ou mesmo sobre o contexto histórico em que fez parte, elas normalmente acertam o alvo, você se reconhece enquanto autor nessas teses?

A academia complica. E muitas vezes erra. Complicando algo que o poeta escreveu da forma mais simples do mundo. O poema quer dizer aquilo que está escrito. E ai vem as teses pra tentar explicar algo que não precisa de explicação. Tá tudo ali. Ser objeto de teses de mestrado às vezes soa estranho, eu que venho de uma geração iconoclasta. Mas a tradição é feita de rupturas. A poesia da geração mimeografo foi uma ruptura, mesmo mamando nas tetas do modernismo oswaldiano.

Nicolas Behr é um dos mestres em textos curtos, característica típica da produção dos anos 70, a forma breve, a síntese, o instantâneo. E esses formatos são recorrentes nos Poemas no Ônibus e no Trem, o que pode ser dito sobre esses textos enquanto forma poética?

Vivemos um tempo sem tempo. Estamos fazendo concessões demais? Mas os tempos são mesmo ágeis, rápidos, fragmentado. E a poesia é sempre espelho Do  seu tempo.


segunda-feira, abril 28, 2014

ENTREVISTA POÉTICA 2014

Dia 12 de maio a primeira edição de 2014 da Entrevista Poética com Diego Petrarca e Lorenzo Ribas na Saraiva do Praia de Belas recebe o jornalista e escritor Juarez Fonseca.


LEIA NA CAMISA - MARÇO/ABRIL


Página: http://is.gd/O4ndoZ




A edição de março/abril do LEIA NA CAMISA aconteceu durante a intervenção literária nomeada de Bambucicloteca, dentro da primeira edição de 2014 do Projeto Cabaré do Verbo, na Casa de Cultura Mário Quintana. Agradecimentos aos colaboradores e aos fotógrafos Marcelo Monteiro, Josemar Albino, e as colaborações de Andréia Aguiar e Maria Elizabeth Knopf.










terça-feira, abril 15, 2014

SARAU DAS SEIS - AS MALDITAS QUE AMAMOS

Mais uma super edição do Sarau das Seis na Palavraria Livros, as nossas poetas malditas adoradas, um prazer participar com essa equipe de primeira. As autoras comentados foram Ana Cristina Cesar, Hilda Hilst, Orides Fontela e  Carolina Maria de Jesus. Com Gabriela Silva, Lígia Sávio, Jéferson Tenório e Diego Petrarca.





sexta-feira, abril 04, 2014

DISCOTECA CAETÂNICA


3 TRANSQUADRAS


Da série que está nascendo já em larga escala, as Transquadras. Três deles foram publicadas na última quinta feira em  ZH, no espaço dedicado, entre outras coisas, a poesia nossa de cada dia. 



terça-feira, março 18, 2014

LADODENTRO ENTREVISTA - FABRÍCIO CORSALETTI

O escritor e poeta Fabrício Corsaletti gentilmente respondeu, e rápido, algumas perguntas sobre seu mais recente trabalho: Quadras Paulistanas, lançado ano passado pela Companhia das Letras. O livro já foi tema de uma das postagens deste blog e recupera de forma criativa o formato quadra, misturando crônica e poesia destacando aspectos cotidianos da cidade de São Paulo. O olhar do autor está atento a cada detalhe de Sampa, vê-se que o Corsaletti é íntimo da megalópole. Nessa conversa, o autor comenta mais sobre seu projeto mais recente e o processo de elaboração da obra. Confere aí.



O que motivou o formato do poema em quadra para compor a série do livro?
Minha coluna quinzenal na revista "São Paulo", do jornal folha de São Paulo. Com a brevidade das quadras, descobri que poderia tratar de muitos assuntos, assuntos sobre os quais talvez eu não tivesse mais do que 4 linhas pra falar.

No seu ponto de vista, além do aspecto sonoro e da brevidade, quais outros aspectos da quadra são propícios a uma função poética de linguagem?
A rima é algo que me atrai. E ela se sobressai, ganha uma força enorme na quadra.

Você concorda que a quadra é um modo de aproximar a poesia do leitor comum? (até pelo histórico popular da tradição da forma) e também pela estrutura lúdica, sonora, com um apelo comunicativo, a ponto do poema/quadra soar próximo a um slogan publicitário?  
Sim. Mas não vejo a quadra tão próxima do slogan publicitário. Penso que tem mais a ver com a infância das pessoas, com o batatinha quando nasce e coisas assim. 

Em Quadras Paulistanas o cotidiano é um tema relevante, do mesmo esse tema é recorrente em sua poesia de um modo geral. Quais outras marcas da sua poética estão presente também em Quadras Paulistanas?
Não sei. Não me preocupo com isso. E acho que um artista não deve avaliar o próprio trabalho. Essa é a tarefa do leitor, do crítico.

Existe alguns teóricos que lhe comparam a poesia moderna a partir das propostas de 1922, a concisão, o coloquialidade, o humor, típicos de Oswald de Andrade ou aos primeiros livros de Drummond, você concorda que suas Quadras são influenciados por esses exemplos? 
Sim. Sempre acreditei que eu não teria escrito um único verso na vida se não tivesse lido os poetas modernos brasileiros.

 Em sua poesia não é comum a utilização exagerada de metáforas ou um rebuscamento de linguagem, se dá mais através do efeito, nesse sentido é como se fosse uma prosa distribuída habilidosamente em versos? ou seja, você evita o "poema" para fazer sua poesia?
Sim e não. Leio muita prosa e imagino que minha escrita seja influenciada por ela. Desde os 25 anos eu próprio escrevo prosa - tenho um livro de contos, uma novela, crônicas. Quanto à minha poesia... sei que tenho usado poucas metáforas, mas a verdade é que não penso mais nesses termos. Só quero saber se a imagem funciona, e essa imagem pode ser uma descrição, uma narrativa, uma comparação, uma metáfora etc. o nome não importa. Não gosto quando a metáfora se torna um ornamento, uma sobra. É a velha frase do Hemingway: "prosa é arquitetura, não decoração de interiores". Poesia pra mim também é isso.

Alguns autores dos quais você não consegue se livrar, mesmo que você disfarce, e sempre acabam conversando com seus textos. E alguns poetas da canção te dizem tanto quanto os poetas livrescos.
Eu não disfarço nada. Aceito minhas influências, minhas obsessões. Sou grato aos poetas modernos brasileiros, aos poetas compositores brasileiros, a Bob Dylan, aos prosadores norte-americanos (Hemingway, Faulkner, Fitzgerald, Carver, Salinger), a Rubem Braga, a Rimbaud, a Apollinaire etc. sem eles, eu não faria nada ou faria muito pior. Não penso neles quando vou escrever, mas sei que um ou outro sempre aparece nos meus textos. E está tudo bem. A criação não é pura. A pureza não é algo deste mundo.

 Não é de hoje, sua geração já trabalha tendo a internet como veiculação da obra. Você sugere que os autores novos antes de chegar ao livro devam circular na internet? até como um modo de perder o ineditismo? isso é válido, uma vez que a internet é um "vento onde tudo cabe".
A internet é maravilhosa nesse sentido. Não sugiro nada aos jovens autores porque acredito que cada um tem que encontrar seu caminho. A internet pode ser um deles - sei que é para muitos.

Uma de suas marcas é a abordagem da memória como um modo de resgatar uma outra identidade, ou reinventar a memória com sensibilidade lírica do presente. Isso foi uma decisão planejada ou poemas foram nascendo assim?
Foram nascendo assim.

Em suas práticas de oficina literária, o que costuma repassar aos alunos?
 De poesia, dei apenas duas oficinas. Li com os alunos poemas que me agradavam e mostrei a eles por quê. Depois cada um escrevia o que quisesse e discutíamos os textos produzidos. Fico um pouco tímido em oficinas de poesia. É como se estivesse esquartejando minha mãe em público. Mas nas de prosa me sinto à vontade. Tenho muitas aulas preparadas sobre aspectos da linguagem que me interessam, como precisão, descrição, estranhamento, e outras em que analiso contos de autores que admiro lendo-os junto com os alunos. 



sábado, março 08, 2014

QUADRAS PAULISTANAS

Em 2013 o escritor e poeta Fabrício Corsaletti lançou pela Companhia das Letras o livro Quadras Paulistanas, uma reunião dos poemas em 4 versos publicados originalmente na Revista da Folha, em que o autor manteve uma coluna semanal durante 3 anos. O livro conta com um diálogo entre palavra e imagem com a contribuição do artista Andrés Sandoval, que ilustrou as quadras de acordo com o enunciado dos poemas além de sugerir um acabamento gráfico diferente para a edição. 

O autor não privilegia o poema no trabalho com a linguagem, ou melhor, privilegia de outro modo, trabalhando aspectos do registro do cotidiano numa linguagem simples, com vocabulário básico, mas acertando em achados de som e sentido que aguçam o interesse pela leitura, ora tendendo para uma narrativa, ora para uma bela crônica poética. Quadras Paulistanas recupera a forma de quadra fazendo um  texto breve com as surpresas semânticas nas dobras de cada frase. A poética paulistana encravada no cotidiano da cidade promovendo uma aproximação entre poesia e crônica, entre poesia e reportagem, entre poesia e imagem das ruas. É um modo criativo de conhecer Sampa e o livro serve também como um guia turístico anticlchê nesse retrato subjetivo em que o autor se propõe sobre a megalópole. Vibrei com a proposta e com a leitura.







sexta-feira, março 07, 2014

LADODENTRO ENTREVISTA - AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Entrevista com o poeta e escritor Affonso Romano de Sant'anna. Entre suas inúmeras contribuições para a Literatura Brasileira, especialista em Drummond e com vasta bibliografia literária. Affonso reflete um pouco sobre poesia e outros diálogos literários com o gênero. Uma das dicas que o autor sugere é seu excelente livro que aborda a canção brasileira e a poesia moderna e todas as relações pertinentes entre elas: Música Popular Moderna e Poesia Brasileira, lançado em 1976 e relançado em 2013 pela Editora Nova Alexandria.  

O encontro insólito de duas sílabas ou palavras pode produzir uma explosão incalculável de sentimentos.


Em que medida a atividade de jornalista alimentou seu conteúdo poético?

Comecei a escrever em jornal acho que aos 16 anos, portanto,sempre me foi natural o elo entre jornal e literatura. Além do mais, nos anos 60 fiz um livro chamado" Jornal de Poesia"( que nunca publiquei) só com poemas feitos sobre fatos da imprensa. Jornal tem de tudo, poesia, drama, comedia, tragédia, humor,enfim é uma síntese da vida. E como cronista participo digerindo isto.

 Carlos Drummond de Andrade é uma de suas especialidades (defesa de doutorado), em As Impurezas do Branco, de 1973, Drummond arrisca uma poesia próxima da crônica e algumas tentativas experimentais de linguagem e forma. Sua poesia também é cotidiana e busca essa aproximação com o leitor. Nesse sentido, existe alguma afinidade direta da sua matriz poética com o conteúdo de As Impurezas do Branco?  

Drummond separava muito a poesia da prosa, ao contrário de Rubem Braga, fazia "crônica poética” Eu às vezes misturo ambas sem preconceito. Tenho muitas crônicas que os leitores não apenas chamam de “poema” mas me mandam de forma versificada. Eu mesmo peguei uma crônica motivada pela morte do Helio Pelegrino e descobri que era poesia, e assim a republiquei posteriormente.

Por que se escreve poesia?

Para expor a perplexidade e o encantamento diante do mistério. Desde a antiguidade, com os shaman, com os profetas e com os grandes poetas porta-vozes de sua comunidade foi assim.  Os que fazem poesia como jogo pretensamente inteligente, que fazem poesia para entrar na moda ou apenas para seduzir ficam no meio do caminho. Numa enquete que o Edson Cruz  fez pedindo aos poetas que dissessem o que é poesia,ocorreu-me dizer: “poesia é a transverberação do espanto"O verbo, o logo está nisto.

Oswald de Andrade e João Cabral. De um lado intuição, ironia e síntese, do outro  rigor formal, a concretude e a antimusica. Como você percebe a harmonia entre essas duas forças da nossa poesia moderna? Ou ainda: em que você esteve mais inclinado poeticamente?

Seguinte: Oswald é um poeta menor. Fez experiências típicas do modernismo, ficou naquela livro inicial. Não desenvolveu um projeto como Drummond, Cecília, J.de Lima,etc. Cabral é um poeta excepcional,mas teoricamente equivocado ao pregar que poesia é   construção, razão, forma.  Se ele tivesse razão  99,9% da boa poesia universal seria um equivoco.Essa coisa de "rigor formal" leva ao “rigor mortis" e muita gente ficou paralisada pelo falso sofisma da forma.

Comente a ideia da poesia veiculada fora dos livros, outros suportes. 

Sempre fui a favor de formas novas para"conduzir"a poesia. O primeiro livro que publiquei'"O desemprego"do poeta"  lutava pelo "reemprego" da poesia. Acho bom aproveitar os espaços de ociosidade, espaços intercalares.Me agrada, me conte do resultado.

Pode-se afirmar que a crônica é o gênero de maior alcance pelo fato  de ter uma maior veiculação nos jornais? por esse aspecto, se a poesia (sem o tal rebuscamento) fosse publicada em jornais com mais destaque, poderia ser uma forma de gerar mais leitores, até consumidores da poesia em livros?

Antonio Cândido cometeu esse deslize de dizer que a crônica é um gênero menor. Não há gênero menor, há autores menores diante de certos gêneros. Minha trajetória é um testemunho de como a poesia  e crônica podem e devem funcionar fora dos  livros. Os leitores se apoderam dos textos com uma ferocidade meiga. Veja agora esse vídeo poema, em 4 línguas, que lancei no Youtube e na Internet: OBAMA, VENHA COMIGOA CARTAGO.

 Em sua poesia, é notável a forma com a qual você equilibra lirismo, reflexão social e até uma atitude política. A poesia, por ser o contraponto, o deslocamento, a recriação dos significados, ela pode também ser literal a ponto de transmitir um pensamento inclusive filosófico?

Um dos livros mais úteis para poetas então poetas é o "Homo ludens" de Huizinga. Sempre o aconselho nos cursos de criação literária. Poesia e jogo, poesia e invenção, poesia e filosofia. Minha tese sobre Drummond  é um passeio pela filosofia mostrando que se Heidegger tivesse lido Drummond  poderia ter escrito ensaios notáveis. Ao contrário, Drummond nunca leu Heidegger. Eu leio de tudo, consumo, por exemplo,   livros de física e  ciências, exatamente porque não entendo esse mundo, mas me maravilho sempre. O cientista e o filósofo estão mais próximos do poeta do que se imagina.  Sempre digo que a poesia,a boa literatura é como o trabalho do físico nuclear, é a fissão vocabular. O encontro insólito de duas sílabas ou palavras pode produzir uma explosão incalculável de sentimentos

Você escreveu sobre Ezra Pound, na poesia moderna ele é referência. Aponte outras virtudes desse poeta/inventor que você descobriu em suas leituras.

 O que escrevi sobre Pound foi uma correção: mostrei seus equívocos apesar das suas  intenções.Fui contra a corrente que acha que simplesmente citar Pound ou Joyce torna as pessoas mais inteligentes. As pessoas precisam ter "redação própria", pararem de  repetir o que pessoas ditas como inteligentes dizem.  As pessoas dizem: Mallarmé/Pound/Joyce e acham que têm direito à vida eterna. Estou desconstruindo este mito. Fiz isto também em relação às artes: a arte contemporânea é o domínio da indigência teórica, da repetição do que outros lá fora disseram.

 Duas leituras básicas (livros) para o poeta aspirante.

"Homo Ludens- Huizinga". E para quem quer saber o que aconteceu com a poesia brasileira no século passado o meu livro “ MUSICA POPULAR E MODERNA POESIA BRASILEIRA "ED. Nova Alexandria".




quarta-feira, fevereiro 26, 2014

OFICINA LITERÁRIA - JAN/FEV

Encontro final do módulo de Oficina Literária na livraria Sapere Aude Livros ministrada por Diego Petrarca. As novas e surpreendentes versões dos textos de Maria Elizabeth KnopffDelma Gonçalves Mattos, Teresinha Paz Pereira e Silvia Clara Agnes (que não está na foto mas foi presença importante no curso). 







sexta-feira, janeiro 24, 2014

LEIA NA CAMISA - JANEIRO/FEVEREIRO

Está lançado aqui o projeto poético LEIA NA CAMISA. poemas breves, meio e mensagem datilografados na camisa que cobrescreve o corpo. Poesia ambulante. O corpo como suporte do texto, tatuagem provisória, poesia que veste o corpo, legenda para andar na ruas, o tecido é a página.

Página: http://is.gd/O4ndoZ


Jan/Fev







sexta-feira, janeiro 17, 2014

LADODENTRO ENTREVISTA: LOBÃO


Brevíssima entrevista com Lobão feita por mail em 2011. Respostas rápidas para um Lobão sempre prolixo e verborrágico. Uma tentativa de arrancar reflexões sobre a linguagem e o artesanato poético do compositor sempre antecipado pela polêmica.



Em que medida você pensa um tratamento literário para a letra da canção mesmo antes ou depois da música pronta?

Na medida em que ela precise de alguma modificação.

Você sempre menciona Julio Barroso, Cazuza, Renato Russo, como poetas da sua geração. O que um letrista deve ter para Lobão considerá-lo poético?

Ser um poeta de verdade.

De um lado Para Onde Você foi - exemplo de um lirismo precioso. Do outro lado Para o mano Caetano - violência verbal bem  articulada. Entre esses dois extremos temos o mel do melhor da poesia de Lobão. Qual dessas dicções o Lobão de hoje se afina mais?

Eu não tenho nenhum compromisso com nada que já fiz. Se já fiz, está lá. O que vem de novo não se alinha a nada. É sempre uma outra história.

 Em Me Chama, existe um texto simples, mas com duas frases em que a poesia cintila: Nem sempre se vê mágica no absurdo /Nem sempre se vê lágrima no escuro. De onde partiram essas construções? 

Vendo um filme sobre o Touro Sentado quando tentou fazer uma dança da chuva e depois de nada conseguir , concluiu: Nem sempre as mágicas  funcionam...

A disciplina é requisito básico de um bom texto. No período da escrita do seu livro/biografia, essa disciplina foi determinante ou  a criação pra você existe também no meio do caos?

Eu sou muito metódico. Acordo sempre às 5 da manhã e começo a escrever das 7 da manha  à 1 da tarde . Disciplina é tudo.

Algumas leituras poéticas essenciais na formação de Lobão.
  
Tolentino, Dante, Rabelais,  Baudelaire, Borges.

E sobre poesia? ela deve transcender a linguagem verbal?

A poesia está além de qualquer linguagem. Para encontrá-la basta percebê-la nas coisas que nos circundam.

Em seu discurso natural há picos de boa literatura, um exemplo disso eram as pérolas escritas na tela destacadas da sua fala em seu programa na MTV.  Em que medida a poesia que não se escreve por ser lida?

A poesia explode no momento em que a percebemos.. aí ela se manifesta.